As lesões no ombro são muito comuns e podem atingir diferentes perfis de pacientes — desde jovens atletas, que sobrecarregam a articulação com movimentos intensos e repetitivos, até pessoas mais velhas, que desenvolvem desgaste progressivo por causa da artrose. Por isso, a decisão sobre tratar uma lesão com fisioterapia ou com cirurgia não é simples nem universal. Cada caso deve ser avaliado individualmente, levando em conta o tipo e a gravidade da lesão, a idade do paciente, o quanto ele usa o ombro nas suas atividades diárias, suas expectativas em relação à recuperação, e se há ou não outras doenças que possam influenciar no tratamento.
Entre as lesões mais frequentes estão as tendinites e bursites, que são inflamações de tecidos moles da articulação e, felizmente, costumam responder bem a medidas simples, como repouso relativo, uso de anti-inflamatórios, fisioterapia especializada e, em alguns casos, infiltrações para aliviar a dor. Já as lesões parciais do manguito rotador — o grupo de tendões responsáveis por manter a estabilidade e os movimentos do ombro — também costumam evoluir bem com tratamento conservador, desde que o paciente siga corretamente o plano terapêutico. No entanto, quando a lesão é completa, principalmente em pessoas mais jovens ou ativas, a cirurgia pode ser a melhor opção para restaurar a força, evitar a progressão da degeneração e garantir maior qualidade de movimento. Em idosos, a indicação cirúrgica depende de fatores como a limitação funcional e a presença de dor persistente.
Outro tipo de lesão que merece atenção é a chamada lesão SLAP, que compromete o lábio superior da articulação — uma estrutura de cartilagem que ajuda a manter a cabeça do úmero encaixada na glenóide. Essa lesão é comum em esportes como vôlei, tênis e natação, que exigem movimentos com o braço elevado acima da cabeça. Nesses casos, atletas costumam apresentar melhores resultados com cirurgia. Já em pacientes que não praticam esportes overhead, muitas vezes inicia-se com reabilitação e observa-se a resposta antes de indicar uma intervenção cirúrgica.
A instabilidade glenoumeral, por sua vez, ocorre quando há luxações (deslocamentos) repetidas do ombro. Após a primeira luxação, geralmente tenta-se o tratamento conservador, apesar de estudos já mostrarem indicação cirúrgica mesmo na primo-luxação. Mas se as recidivas se tornarem frequentes, principalmente em pacientes jovens, a cirurgia passa a ser indicada para estabilizar a articulação e evitar danos futuros articulares.
Entre os benefícios da cirurgia, destaca-se a possibilidade de reconstruir estruturas lesionadas e restaurar a anatomia do ombro, o que normalmente resulta em redução significativa da dor e melhor funcionalidade a médio e longo prazo, especialmente quando bem indicada. Além disso, a correção cirúrgica pode prevenir a degeneração progressiva da articulação, como o desenvolvimento de artrose secundária à instabilidade ou à sobrecarga crônica.
Por outro lado, como em qualquer procedimento cirúrgico, há riscos envolvidos. Apesar de raras, podem ocorrer complicações relacionadas à anestesia, infecção ou rigidez articular no pós-operatório. A reabilitação também exige comprometimento: o paciente deve seguir fielmente o protocolo de fisioterapia, que costuma ser longo e gradativo, para garantir os melhores resultados e evitar recidivas.
Em muitos casos, optar por não operar também é perfeitamente seguro e eficaz. Pacientes com lesões parciais, sem perda funcional importante, idosos com baixa demanda física ou pessoas com contraindicações médicas para cirurgia podem alcançar excelente controle da dor e melhora funcional com fisioterapia, ajustes posturais, fortalecimento e controle da inflamação.
A chave para o sucesso está em uma decisão compartilhada entre médico e paciente. Isso significa que, mais do que interpretar exames, o ortopedista precisa entender os objetivos e limitações de quem está à sua frente. Com base na história clínica, nos exames de imagem, na resposta ao tratamento inicial e nas expectativas reais do paciente, é possível traçar o melhor caminho — seja ele cirúrgico ou conservador — sempre com foco em devolver segurança, autonomia e qualidade de vida.
Principais tipos de lesões e abordagens iniciais
- Tendinites e bursites: geralmente tratadas com repouso, fisioterapia, anti-inflamatórios e, se necessário, infiltração.
- Lesão parcial do manguito rotador: tratamento conservador eficaz na maioria dos casos, mas a cirurgia pode ser indicada se não houver melhora.
- Lesão completa do manguito: em pacientes jovens ou ativos, cirurgia é frequentemente recomendada; em idosos, a decisão deve ponderar função e demanda.
- Lesão SLAP: atletas overhead (vôlei, tênis, natação) tendem a responder melhor à cirurgia; para outros perfis, pode-se iniciar com reabilitação.
- Instabilidade glenoumeral: variável – primeira luxação pode ser tratada de forma conservadora; recidivas, especialmente em jovens, indicam cirurgia.
Critérios para optar pela cirurgia
- Falha do tratamento conservador após 3 a 6 meses;
- Perda de força e limitação funcional significativas;
- Lesões grandes ou com retração muscular visível em exames de imagem;
- Instabilidade recorrente;
- Pacientes ativos com necessidade de retorno rápido a esportes ou trabalho físico.
Vantagens da cirurgia
- Restauração anatômica das estruturas lesionadas;
- Melhores resultados funcionais em casos indicados corretamente;
- Redução de dor crônica e prevenção de degeneração secundária.
Riscos e limitações
- Complicações anestésicas e infecciosas (ainda que raras);
- Reabilitação prolongada e necessidade de engajamento do paciente;
- Possibilidade de rigidez articular ou recidiva da lesão.
Quando manter o tratamento conservador
- Lesões parciais sem perda funcional relevante;
- Idosos com baixa demanda física;
- Pacientes com contraindicações clínicas para cirurgia;
- Alta resposta à fisioterapia.
Importância da decisão compartilhada
A escolha entre cirurgia e tratamento conservador deve envolver uma conversa franca entre médico e paciente, baseada em evidências e expectativas reais. Avaliações periódicas e exames de imagem ajudam a monitorar a evolução e ajustar a conduta.




